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Uma Conversa à Beira-Mar na Costa da Caparica | Mulheres de Prazer
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Uma Conversa à Beira-Mar na Costa da Caparica

Uma Conversa à Beira-Mar na Costa da Caparica

Uma Conversa à Beira-Mar na Costa da Caparica

PARTE 1 – O Encontro

O final de setembro trazia um ritmo diferente à Costa da Caparica.

As multidões do verão tinham desaparecido. As praias voltavam a pertencer aos moradores, aos surfistas que procuravam as primeiras ondas da manhã e a quem simplesmente desejava caminhar junto ao Atlântico sem pressa.

Leonor precisava exatamente disso.

Trabalhava há vários anos numa agência de arquitetura em Lisboa e os últimos meses tinham sido intensos. Entre projetos, reuniões e prazos apertados, deixara de encontrar tempo para si própria.

Naquela sexta-feira decidiu fazer algo diferente.

Entrou no carro logo ao início da tarde e atravessou a ponte em direção à Costa da Caparica.

Assim que estacionou junto à marginal, respirou profundamente.

O cheiro da maresia misturava-se com o aroma vindo dos pequenos restaurantes onde começavam a preparar o jantar.

O mar encontrava-se calmo.

As ondas rebentavam lentamente sobre a areia dourada.

Leonor tirou os sapatos e começou a caminhar junto à água.

Não tinha destino.

Nem pressa.

Queria apenas ouvir o oceano.

Ao longe reparou num homem sentado sobre um tronco trazido pela maré.

Segurava um caderno de capa preta.

Escrevia.

Parava.

Voltava a escrever.

Parecia completamente concentrado.

Quando passou perto dele, uma rajada de vento arrancou várias folhas do caderno.

Sem pensar, Leonor correu atrás delas.

Conseguiu apanhar quase todas antes que fossem levadas pelo mar.

— Acho que o Atlântico decidiu participar na história — disse ela, entregando-lhe as folhas.

O homem sorriu.

— Talvez tenha achado que o final precisava de ser diferente.

Chamava-se Tomás.

Era escritor.

Ou pelo menos tentava sê-lo.

Durante anos trabalhara como jornalista, mas recentemente decidira dedicar-se ao romance que sempre sonhara publicar.

Escolhera precisamente a Costa da Caparica para terminar o manuscrito.

Dizia que o som das ondas o ajudava a encontrar as palavras certas.

Leonor riu-se.

— E encontrou?

Tomás fechou lentamente o caderno.

— Hoje encontrei uma pessoa que salvou metade do livro.

Talvez isso seja um bom começo.

Sentaram-se lado a lado a observar o oceano.

Conversaram sobre livros.

Sobre viagens.

Sobre cidades portuguesas.

Sobre a estranha capacidade que o mar tem para colocar tudo em perspetiva.

Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, ambos ficaram em silêncio.

O céu encheu-se de tons dourados, laranja e rosa.

Nenhum deles pegou no telemóvel.

Nenhum deles parecia ter pressa em regressar.

Depois de alguns minutos, Tomás perguntou:

— Costumas vir aqui?

Leonor abanou a cabeça.

— Hoje foi a primeira vez em muitos meses.

— Então escolheste o dia certo.

Ela olhou para ele com curiosidade.

— Porquê?

Tomás apontou para o horizonte.

— Porque nenhum pôr do sol na Costa da Caparica é igual ao anterior.

Cada um conta uma história diferente.

A frase ficou-lhe na memória.

Quando finalmente decidiram regressar ao passeio marítimo, já as luzes dos cafés começavam a acender-se.

Antes de se despedirem, Tomás fez-lhe um convite inesperado.

— Amanhã de manhã vou caminhar até ao fim da praia.

Sem horários.

Sem destino.

Se quiseres conversar outra vez... apareces.

Leonor hesitou durante alguns segundos.

Normalmente nunca aceitaria um convite feito por alguém que acabara de conhecer.

Mas havia qualquer coisa naquela conversa que lhe transmitia uma serenidade difícil de explicar.

Sorriu.

— Talvez apareça.

Na manhã seguinte acordou mais cedo do que o habitual.

Enquanto conduzia novamente para a Costa da Caparica, percebeu que sorria sem motivo aparente.

Quando chegou, Tomás já caminhava junto ao mar.

Ao vê-la aproximar-se, limitou-se a dizer:

— Afinal escolheste continuar a conversa.

Leonor respondeu olhando para o oceano.

— Algumas conversas merecem mais do que um único pôr do sol.

Sem que nenhum dos dois imaginasse, aquela simples caminhada seria o início de um fim de semana capaz de transformar a forma como ambos olhavam para o futuro.

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PARTE 2 – O Som das Ondas

Na manhã seguinte, a Costa da Caparica despertava lentamente.

O sol refletia-se sobre o Atlântico, enquanto os primeiros surfistas procuravam as melhores ondas do dia. Algumas pessoas caminhavam pela areia molhada, outras passeavam os cães junto ao mar. O ambiente era tranquilo, como se o tempo avançasse mais devagar.

Leonor avistou Tomás ao longe.

Caminhava descalço, segurando o caderno preto debaixo do braço.

Quando ela se aproximou, ele sorriu.

— Sabia que vinhas.

— Como podias ter tanta certeza?

Tomás olhou para o horizonte.

— Porque quem encontra paz num lugar costuma regressar.

Começaram a caminhar sem destino definido.

O som constante das ondas acompanhava cada passo.

Durante largos minutos limitaram-se a observar o mar.

Por vezes, o silêncio dizia muito mais do que qualquer conversa.

Ao passarem junto a um pequeno café de praia decidiram parar para tomar o pequeno-almoço.

Sentaram-se numa mesa voltada para o oceano.

Entre café, fruta fresca e pão acabado de sair do forno, a conversa tornou-se mais pessoal.

Leonor contou-lhe que sempre sonhara viajar pelo mundo.

Mas os anos tinham passado demasiado depressa.

O trabalho ocupava quase todo o seu tempo.

As férias eram constantemente adiadas.

Os projetos sucediam-se uns aos outros.

— Um dia percebi que estava a viver apenas para cumprir horários — confessou.

Tomás ouviu atentamente.

Depois respondeu com serenidade.

— Às vezes não precisamos de mudar de país.

Precisamos apenas de mudar a forma como vivemos os dias.

A frase ficou a ecoar na mente de Leonor.

Continuaram o passeio em direção às praias mais afastadas.

Quanto mais caminhavam, menos pessoas encontravam.

A areia parecia infinita.

O oceano estendia-se até ao horizonte.

A certa altura encontraram um antigo passadiço de madeira que conduzia às dunas.

Subiram lentamente.

Do alto conseguiam observar praticamente toda a linha costeira.

— Este é um dos meus lugares preferidos — disse Tomás.

— Porque ninguém fala dele?

Ele sorriu.

— Porque alguns lugares continuam especiais precisamente por ainda não serem conhecidos por toda a gente.

Sentaram-se sobre um banco de madeira.

O vento fazia mover suavemente as ervas das dunas.

Ao longe ouviam-se apenas as ondas.

Tomás abriu finalmente o caderno.

— Posso mostrar-te uma coisa?

Leonor acenou afirmativamente.

Entre as páginas existiam dezenas de pequenos textos.

Alguns incompletos.

Outros riscados.

Outros apenas com poucas linhas.

— São histórias?

— São começos.

Ainda não encontrei o final certo para nenhuma.

Leonor começou a folhear lentamente.

Reparou que muitas narrativas tinham algo em comum.

Falavam sempre de reencontros.

De segundas oportunidades.

De pessoas que mudavam graças a uma conversa inesperada.

— Escreves sobre aquilo em que acreditas?

Tomás fechou cuidadosamente o caderno.

— Escrevo sobre aquilo que ainda espero encontrar.

A resposta emocionou Leonor mais do que esperava.

Naquela tarde decidiram alugar bicicletas.

Percorreram vários quilómetros junto ao mar.

Pararam para observar pescadores a recolher as redes.

Fotografaram o pôr do sol.

Riram de pequenas situações sem importância.

Pela primeira vez em muito tempo, Leonor desligou completamente o telemóvel.

Nem mensagens.

Nem chamadas.

Nem notificações.

Apenas o mar.

Quando regressavam ao centro da Costa da Caparica, encontraram um pequeno músico de rua a tocar guitarra.

Sem combinar, sentaram-se num banco próximo.

Ouviram três ou quatro músicas em completo silêncio.

No final, Tomás deixou discretamente uma moeda no chapéu do músico.

— Porque fizeste isso?

— Porque algumas pessoas vivem de criar momentos que os outros nunca esquecem.

Ao anoitecer voltaram à praia.

As estrelas começavam a surgir lentamente sobre o oceano.

Sentaram-se novamente na areia.

Foi então que Leonor fez uma pergunta.

— Achas que algumas pessoas aparecem exatamente quando mais precisamos delas?

Tomás demorou alguns segundos a responder.

Olhou para o mar.

Depois para ela.

— Acho que há encontros que parecem acaso.

Mas, anos mais tarde, percebemos que mudaram completamente o rumo da nossa vida.

Leonor permaneceu em silêncio.

Sentia exatamente o mesmo.

No entanto, nenhum dos dois sabia quanto tempo aquela história ainda iria durar.

O fim de semana aproximava-se rapidamente do fim.

E ambos tinham consciência de que, em breve, cada um regressaria à sua rotina.

Enquanto caminhavam de volta ao passeio marítimo, Tomás disse apenas:

— Amanhã gostava de te mostrar o lugar onde comecei a escrever este livro.

Leonor sorriu.

— Então amanhã continuamos a conversa.

Sem imaginarem, seria precisamente esse último dia que lhes mostraria que algumas histórias não terminam quando acaba uma viagem.

Apenas começam aí.

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PARTE 3 – Onde as Ondas Guardam Memórias

O último dia chegou mais depressa do que ambos imaginavam.

Quando Leonor abriu a janela do hotel, o céu encontrava-se limpo. O sol começava lentamente a iluminar a areia dourada da Costa da Caparica, enquanto o Atlântico mantinha o seu movimento constante.

Desceu até à praia.

Tomás já a esperava.

Trazia o habitual caderno preto na mão.

— Hoje vou mostrar-te o lugar onde tudo começou.

Caminharam durante quase uma hora pela areia, afastando-se das zonas mais movimentadas.

À medida que avançavam, os cafés desapareciam, o ruído diminuía e apenas permanecia o som das ondas.

Chegaram finalmente a um pequeno passadiço de madeira rodeado por dunas.

Ali existia apenas um banco virado para o oceano.

Tomás sentou-se.

— Foi aqui que comecei a escrever o meu primeiro romance.

Leonor observava o horizonte.

— E porque escolheste precisamente este lugar?

Ele sorriu.

— Porque aqui aprendi que o silêncio também conta histórias.

Durante largos minutos permaneceram sem falar.

O vento transportava o cheiro da maresia.

Ao longe, um pequeno barco seguia lentamente junto ao horizonte.

Tomás abriu o caderno.

Retirou cuidadosamente uma folha.

— Gostava que lesses isto.

Leonor começou a ler.

Não era um capítulo.

Nem um poema.

Era apenas uma reflexão.

Falava sobre encontros inesperados.

Sobre pessoas que aparecem exatamente quando deixamos de as procurar.

Sobre lugares que mudam a nossa forma de viver.

Quando terminou a leitura, levantou lentamente os olhos.

— Foste tu que escreveste isto?

Tomás acenou afirmativamente.

— Mas só consegui terminá-lo depois de te conhecer.

Leonor sorriu discretamente.

Nunca imaginara que uma conversa iniciada por algumas folhas levadas pelo vento pudesse transformar-se numa memória tão especial.

Decidiram passar o resto do dia sem qualquer plano.

Almoçaram num pequeno restaurante junto à praia.

Experimentaram peixe fresco acabado de chegar do mar.

Conversaram sobre livros.

Sobre infância.

Sobre os lugares que ainda gostariam de conhecer.

Ao final da tarde voltaram a caminhar pela marginal.

As esplanadas enchiam-se lentamente.

Famílias passeavam.

Crianças brincavam na areia.

Surfistas regressavam com as pranchas debaixo do braço.

A Costa da Caparica mantinha a mesma serenidade que os tinha aproximado dias antes.

Pouco antes do pôr do sol, Tomás pediu-lhe que o acompanhasse até ao local onde se tinham conhecido.

O velho tronco continuava ali.

Quase na mesma posição.

Sentaram-se lado a lado.

— Lembras-te da primeira coisa que me disseste? — perguntou Tomás.

Leonor riu-se.

— Disse que o Atlântico queria participar na tua história.

— Afinal participou mesmo.

Ela olhou para ele.

— Ainda não acabaste o livro?

Tomás fechou lentamente o caderno.

— Acabei hoje.

Entregou-lhe o manuscrito.

Na última página existia apenas uma frase.

"Algumas histórias começam quando pensamos que apenas fomos caminhar junto ao mar."

Leonor emocionou-se.

Nunca tinha imaginado fazer parte da história de alguém.

Quando o sol desapareceu completamente no horizonte, levantaram-se.

Sabiam que dentro de poucas horas regressariam às suas vidas.

Mas também sabiam que nenhuma daquelas vidas seria exatamente igual.

Na manhã seguinte, Leonor voltou a Lisboa.

O trânsito.

Os edifícios.

As reuniões.

Tudo parecia igual.

Mas ela sentia-se diferente.

Passou a reservar tempo para si.

Voltou a viajar.

Aprendeu a desligar o telemóvel durante algumas horas.

E sempre que precisava de recuperar energia regressava à Costa da Caparica.

Meses depois, entrou numa pequena livraria.

Sobre uma mesa encontrava-se um romance recentemente publicado.

O título chamou imediatamente a sua atenção.

"Uma Conversa à Beira-Mar."

Abriu cuidadosamente o livro.

Na página de dedicatória podia ler-se:

"À pessoa que me ensinou que as melhores histórias começam com uma simples conversa."

Sorriu.

Sem pensar duas vezes pegou no telemóvel.

Escreveu apenas uma mensagem.

"A conversa ainda continua?"

Poucos segundos depois surgiu a resposta.

"Enquanto existirem ondas na Costa da Caparica, haverá sempre mais uma página para escrever."

Leonor fechou o livro.

Saiu da livraria.

Olhou para o céu.

E percebeu que algumas pessoas entram na nossa vida para nos recordar que a felicidade raramente aparece nos grandes acontecimentos.

Por vezes, encontra-se numa caminhada sem destino.

Num banco voltado para o mar.

Numa conversa inesperada.

Ou simplesmente no som das ondas que continuam, dia após dia, a contar histórias a quem as quiser ouvir.

Fim.

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