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A Mulher Que Apareceu Apenas Uma Vez em Trás-os-Montes | Mulheres de Prazer
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A Mulher Que Apareceu Apenas Uma Vez em Trás-os-Montes

A Mulher Que Apareceu Apenas Uma Vez em Trás-os-Montes

A Mulher Que Apareceu Apenas Uma Vez em Trás-os-Montes

PARTE 1 – O Encontro na Aldeia

O outono chegava lentamente a Trás-os-Montes.

As vinhas começavam a ganhar tons dourados e avermelhados, os castanheiros deixavam cair os primeiros frutos e o ar fresco da montanha anunciava a mudança da estação.

Miguel conduzia por uma estrada estreita, rodeada por socalcos e pequenos muros de pedra construídos há gerações.

Não tinha pressa.

Depois de anos a viver entre reuniões, aeroportos e hotéis, decidira tirar alguns dias apenas para percorrer o interior de Portugal.

Sempre ouvira dizer que Trás-os-Montes tinha uma forma muito própria de receber quem a visitava.

Queria descobrir se era verdade.

Ao chegar a uma pequena aldeia, estacionou junto ao largo principal.

As casas de granito pareciam guardar histórias antigas.

As chaminés libertavam o aroma da lenha.

O sino da igreja marcava lentamente as horas.

Tudo ali parecia viver num ritmo completamente diferente.

Entrou num pequeno café.

Os habitantes conversavam tranquilamente enquanto bebiam café e jogavam cartas.

Foi recebido com um sorriso.

Depois do almoço decidiu caminhar pelas ruas estreitas da aldeia.

Sem mapa.

Sem destino.

Foi então que a viu.

Junto a um antigo fontanário de pedra encontrava-se uma mulher a encher cuidadosamente uma garrafa de barro.

Vestia um casaco de lã cor de vinho.

O cabelo escuro movia-se lentamente com o vento da montanha.

Quando terminou, sorriu discretamente para Miguel.

— Não és daqui.

A afirmação surgiu naturalmente.

Miguel riu-se.

— Nota-se assim tanto?

Ela olhou em redor.

— Quem nasce aqui aprende a caminhar devagar.

Tu ainda tens o ritmo da cidade.

A observação surpreendeu-o.

Ela tinha razão.

Mesmo ali, continuava a caminhar como se estivesse atrasado para alguma coisa.

Apresentou-se apenas como Inês.

Não disse mais nada.

Começaram a conversar enquanto percorriam lentamente a aldeia.

Inês conhecia cada casa.

Cada árvore.

Cada caminho de pedra.

Cumprimentava todos os habitantes pelo nome.

Falava das tradições locais, das colheitas, das festas populares e das antigas lendas transmontanas com um entusiasmo contagiante.

Miguel escutava atentamente.

Sentia que cada rua escondia uma nova história.

Ao final da tarde chegaram a um pequeno miradouro sobre o vale.

O silêncio era absoluto.

Apenas se ouviam os chocalhos de algumas ovelhas ao longe.

— É impossível estar aqui e pensar no trabalho — comentou Miguel.

Inês sorriu.

— É exatamente por isso que nunca fui embora.

Permaneceram vários minutos apenas a observar a paisagem.

O sol começava lentamente a desaparecer atrás das montanhas.

As sombras alongavam-se sobre os campos.

O ar tornava-se cada vez mais fresco.

Antes de regressarem à aldeia, Inês disse apenas:

— Amanhã vou até ao velho castanhal.

Se gostares de caminhar... aparece.

Miguel não respondeu imediatamente.

Limitou-se a sorrir.

Naquela noite jantou numa pequena casa de turismo rural.

Enquanto observava as montanhas através da janela, percebeu que não conseguia deixar de pensar naquela mulher.

Não sabia praticamente nada sobre ela.

Nem idade.

Nem profissão.

Nem sequer se vivia realmente naquela aldeia.

Sabia apenas que, durante algumas horas, conseguira mostrar-lhe um lado de Trás-os-Montes que dificilmente aparecia nos roteiros turísticos.

Na manhã seguinte acordou antes do nascer do sol.

Quando chegou ao castanhal, Inês já caminhava entre as árvores centenárias.

Ao vê-lo aproximar-se, sorriu.

— Afinal voltaste.

Miguel respondeu olhando para a imensidão dourada das folhas caídas.

— Acho que algumas pessoas aparecem na nossa vida exatamente no momento certo.

Inês não respondeu.

Continuou apenas a caminhar lentamente entre os castanheiros.

Sem que nenhum dos dois imaginasse, aquele passeio marcaria o início de uma história impossível de esquecer.

E, talvez, de um encontro destinado a acontecer apenas uma única vez.

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PARTE 2 – Os Caminhos Escondidos

O castanhal despertava lentamente com os primeiros raios de sol.

As folhas douradas cobriam o chão como um enorme tapete, enquanto uma brisa fresca fazia mover suavemente os ramos das árvores centenárias.

Miguel aproximou-se de Inês.

Ela caminhava devagar, como quem conhecia cada pedra daquele trilho desde criança.

— Sabes porque gosto tanto deste lugar? — perguntou ela.

Miguel abanou a cabeça.

— Porque aqui o tempo parece esquecer-se de passar.

Continuaram a caminhar em silêncio.

Ao longe ouviam-se apenas pássaros e o som de um pequeno ribeiro que atravessava o vale.

A tranquilidade daquele lugar fazia Miguel esquecer completamente a rotina da cidade.

Durante o percurso, Inês mostrou-lhe pequenas construções de pedra utilizadas antigamente pelos pastores, antigos caminhos romanos e árvores plantadas há várias gerações.

Cada local tinha uma história.

Cada paisagem parecia guardar uma memória.

Ao chegarem ao alto de uma colina, surgiu diante deles um vale coberto por vinhas e oliveiras.

O sol iluminava lentamente as montanhas de Trás-os-Montes, criando uma paisagem inesquecível.

Miguel permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Nunca imaginei encontrar um lugar assim.

Inês sorriu.

— É precisamente por isso que gosto de viver aqui.

Quem chega sem expectativas acaba sempre por partir apaixonado por esta terra.

Sentaram-se sobre um antigo muro de granito.

Partilharam pão, queijo artesanal, castanhas assadas e mel produzido na aldeia.

Era um almoço simples.

Mas Miguel percebeu que há muito tempo uma refeição não lhe sabia tão bem.

Durante a conversa, Inês contou-lhe que trabalhava na recuperação de tradições locais.

Ajudava associações culturais, recolhia histórias antigas contadas pelos habitantes mais velhos e organizava pequenos eventos para que essas memórias nunca desaparecessem.

— As pessoas pensam que o património são apenas monumentos.

Mas também são as histórias.

As receitas.

As músicas.

As lendas.

Se ninguém as contar, acabam por desaparecer.

Miguel escutava atentamente.

Nunca tinha pensado dessa forma.

Ao início da tarde continuaram o passeio.

Atravessaram pequenas aldeias onde o tempo parecia parado.

Cumprimentaram agricultores que trabalhavam nas vinhas.

Conversaram com um artesão que ainda produzia cestos em madeira.

Entraram numa pequena igreja construída em granito há vários séculos.

Tudo parecia autêntico.

Sem pressa.

Sem turismo excessivo.

Sem artificialidade.

Quando regressavam ao carro, começou inesperadamente a chover.

Refugiaram-se num antigo alpendre de pedra.

Enquanto observavam a chuva cair sobre os campos, Miguel perguntou:

— Nunca tiveste vontade de sair daqui?

Inês ficou alguns segundos em silêncio.

— Já saí.

Vivi vários anos longe.

Conheci muitas cidades.

Mas percebi que o lugar onde somos verdadeiramente felizes nem sempre é o mais famoso.

Por vezes é apenas aquele onde conseguimos reconhecer cada cheiro, cada caminho e cada nascer do sol.

A resposta emocionou Miguel.

Percebeu que também ele procurava exatamente essa sensação.

Naquela noite realizou-se uma pequena festa tradicional na aldeia.

Os habitantes reuniram-se na praça principal.

Havia música popular, dança, castanhas assadas e vinho da região.

Miguel foi recebido como se fizesse parte daquela comunidade.

Os moradores contavam histórias antigas.

Falavam das colheitas.

Das festas de outros tempos.

Das famílias que ali viviam há gerações.

Inês observava tudo com um sorriso tranquilo.

Parecia conhecer cada pessoa.

Cada criança.

Cada idoso.

Quando a música começou, um grupo convidou-os para dançar.

Miguel hesitou.

Inês estendeu-lhe a mão.

— Aqui ninguém dança bem.

Dançamos apenas porque somos felizes.

Ele acabou por aceitar.

Riram.

Conversaram.

Esqueceram completamente as horas.

Quando a festa terminou, caminharam lentamente pelas ruas silenciosas da aldeia.

As estrelas enchiam o céu de uma forma que Miguel nunca conseguira ver na cidade.

Pararam novamente junto ao antigo fontanário onde se tinham conhecido.

— Amanhã regressas a Lisboa? — perguntou Inês.

Miguel confirmou.

Por momentos nenhum dos dois encontrou palavras.

Sabiam que aquele encontro estava prestes a terminar.

Mas também sabiam que havia histórias que não precisavam de muitos dias para permanecerem na memória durante toda a vida.

Antes de se despedirem, Inês sorriu.

— Amanhã gostava de mostrar-te apenas mais um lugar.

O último.

Miguel respondeu sem hesitar.

— Estarei aqui.

Sem imaginarem, aquele último passeio mudaria para sempre a forma como ambos recordariam Trás-os-Montes.

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PARTE 3 – O Último Caminho

A última manhã chegou envolta por um nevoeiro suave que cobria lentamente os vales de Trás-os-Montes.

Miguel acordou cedo.

Abriu a janela da pequena casa de turismo rural e respirou profundamente.

O aroma da terra húmida, da lenha e dos castanheiros misturava-se com o silêncio característico da região.

Sabia que dentro de poucas horas regressaria a Lisboa.

Mas, pela primeira vez em muitos anos, não tinha qualquer vontade de voltar à rotina.

Quando chegou ao largo da aldeia, Inês já o esperava.

Vestia o mesmo casaco cor de vinho da primeira vez que se tinham encontrado.

Sorriu.

— Ainda temos tempo para mais um passeio.

Seguiram por um trilho antigo que atravessava pequenos campos cultivados.

Ao longo do caminho encontravam muros de granito, oliveiras centenárias e pequenas casas de pedra cuidadosamente preservadas.

Cada curva revelava uma nova paisagem.

Depois de quase uma hora de caminhada chegaram a um miradouro natural.

Dali era possível observar montanhas que pareciam não ter fim.

O vento soprava suavemente.

Ao longe ouviam-se apenas os chocalhos do gado.

Miguel permaneceu em silêncio durante largos minutos.

— Nunca imaginei encontrar um lugar assim.

Inês respondeu com serenidade.

— É por isso que gosto de o mostrar apenas a quem sabe apreciá-lo.

Sentaram-se sobre uma antiga pedra de granito.

Enquanto observavam o vale, Miguel fez finalmente a pergunta que o acompanhava desde o primeiro dia.

— Porque disseste que algumas pessoas aparecem apenas uma vez?

Inês demorou alguns segundos a responder.

— Porque a vida ensinou-me que nem todos os encontros existem para durar muitos anos.

Alguns aparecem apenas no momento certo.

E deixam uma marca suficiente para uma vida inteira.

Miguel compreendeu imediatamente.

Não era uma frase triste.

Era uma forma diferente de olhar para as pessoas que cruzam o nosso caminho.

Passaram o resto da manhã a conversar.

Sem pressa.

Sem telemóveis.

Sem interrupções.

Falaram sobre viagens.

Sobre livros.

Sobre os sonhos que ainda queriam concretizar.

E sobre a importância de reservar tempo para viver, em vez de apenas trabalhar.

Ao início da tarde regressaram lentamente à aldeia.

Chegara o momento da despedida.

Junto ao antigo fontanário onde tudo começara, Inês retirou do bolso um pequeno saco de pano.

Entregou-o a Miguel.

Lá dentro encontrava-se uma castanha cuidadosamente envernizada e um pequeno marcador de livro feito à mão.

Na madeira podia ler-se uma frase gravada:

"Há lugares que se visitam.

E há lugares que passam a viver connosco."

Miguel olhou para ela.

— Vou voltar.

Inês sorriu.

— Talvez.

Mas mesmo que nunca voltes, Trás-os-Montes já faz parte da tua história.

Abraçaram-se demoradamente.

Sem promessas.

Sem planos.

Apenas com a certeza de que aqueles dias tinham significado muito mais do que qualquer um deles imaginara.

Poucos minutos depois, Miguel entrou no carro.

Enquanto descia lentamente as estradas sinuosas, olhava constantemente pelo espelho retrovisor.

A aldeia desaparecia pouco a pouco entre as montanhas.

Mas a sensação de paz permanecia.

Nos meses seguintes, a vida voltou ao ritmo habitual.

As reuniões.

Os projetos.

Os compromissos.

Contudo, havia algo que mudara.

Miguel passou a reservar tempo para viajar.

Começou novamente a ler.

Voltou a fotografar paisagens.

Aprendeu a desligar o telemóvel durante algumas horas.

E, acima de tudo, deixou de acreditar que a felicidade dependia apenas do sucesso profissional.

Um ano depois regressou finalmente a Trás-os-Montes.

Percorreu novamente a mesma estrada.

Entrou na mesma aldeia.

Visitou o mesmo café.

Cumprimentou algumas pessoas que ainda se lembravam dele.

Mas ninguém parecia conhecer Inês.

Perguntou discretamente por ela.

Os habitantes olhavam uns para os outros.

— Inês?

Não conhecemos nenhuma Inês por aqui.

Miguel sorriu.

Não insistiu.

Saiu da aldeia e voltou ao velho miradouro.

Sentou-se exatamente no mesmo lugar onde tinham conversado pela última vez.

Retirou da carteira o marcador de livro que continuava cuidadosamente guardado.

Olhou para o horizonte.

Nesse instante, uma leve rajada de vento fez mover as folhas dos castanheiros.

Por um breve momento pareceu ouvir uma voz familiar.

Talvez fosse apenas o vento.

Talvez fosse apenas uma recordação.

Ou talvez algumas pessoas apareçam realmente apenas uma vez.

Mas deixem uma presença tão forte que continuam a caminhar connosco muito depois de terem partido.

Miguel levantou-se.

Sorriu.

E iniciou lentamente o caminho de regresso.

Porque compreendeu finalmente que certas viagens nunca terminam no dia em que regressamos a casa.

Continuam dentro de nós, sempre que recordamos um lugar, uma paisagem ou uma conversa que mudou a nossa forma de olhar para o mundo.

E foi precisamente isso que Trás-os-Montes lhe ofereceu.

Não apenas uma viagem.

Mas uma memória que o acompanharia para sempre.

Fim.

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