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O Último Jantar Antes da Partida | Mulheres de Prazer
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O Último Jantar Antes da Partida

O Último Jantar Antes da Partida

O Último Jantar Antes da Partida

PARTE 1 – O Convite Inesperado

O inverno aproximava-se lentamente da Figueira da Foz.

As ruas junto ao mar estavam mais calmas do que durante o verão. As esplanadas recebiam apenas alguns clientes e o som das ondas tornava-se ainda mais presente quando o vento soprava do Atlântico.

Daniel caminhava sozinho pela marginal.

Dentro de dois dias partiria para o Canadá, onde aceitara um novo desafio profissional.

Era uma oportunidade pela qual trabalhara durante anos.

Mas, curiosamente, quanto mais se aproximava o momento da partida, menos entusiasmo sentia.

Parou diante do oceano.

Perguntava-se quantas vezes voltaria a ver aquele mar.

Enquanto observava o horizonte, ouviu alguém pronunciar o seu nome.

Virou-se lentamente.

Era Matilde.

Tinham estudado juntos na universidade.

Durante vários anos partilharam aulas, cafés, projetos e longas conversas sobre o futuro.

Depois a vida levou cada um para um caminho diferente.

Não se viam há quase oito anos.

Durante alguns segundos limitaram-se a sorrir.

Como se o tempo não tivesse passado.

— Nunca pensei encontrar-te aqui — disse ela.

Daniel riu-se.

— Eu também não.

Conversaram durante alguns minutos.

Matilde trabalhava agora como fotógrafa.

Passava grande parte do tempo a percorrer Portugal em busca de paisagens e histórias para os seus projetos.

Daniel contou-lhe que partiria dentro de dois dias.

Ela ficou em silêncio.

Depois respondeu apenas:

— Então ainda chegámos a tempo.

— A tempo de quê?

Matilde sorriu.

— De um último jantar antes da partida.

Daniel hesitou.

Não tinha qualquer plano para aquela noite.

Aceitou.

Combinaram encontrar-se ao pôr do sol num pequeno restaurante voltado para o mar.

Durante o resto da tarde, Daniel não conseguiu deixar de pensar naquele reencontro inesperado.

Quando chegou ao restaurante, Matilde já estava à sua espera.

Escolhera uma mesa junto à janela.

Lá fora, o oceano parecia fundir-se com o céu.

A luz dourada do entardecer entrava suavemente pela sala.

— Ainda gostas de peixe grelhado? — perguntou ela.

Daniel sorriu.

— Ainda te lembras?

— Algumas coisas nunca se esquecem.

O jantar começou de forma descontraída.

Falaram dos anos da universidade.

Dos professores.

Das viagens que tinham feito.

Dos sonhos que conseguiram realizar.

E daqueles que continuavam por cumprir.

À medida que a noite avançava, a conversa tornou-se mais profunda.

Daniel confessou que, apesar da promoção, sentia um estranho vazio.

Matilde ouviu atentamente.

Depois perguntou:

— Tens medo de partir?

Ele demorou alguns segundos a responder.

— Não.

Tenho medo de descobrir que deixei para trás aquilo que realmente importava.

Ela baixou os olhos.

Durante alguns instantes nenhum dos dois falou.

Apenas escutavam o som do mar.

Quando chegou a sobremesa, Matilde retirou cuidadosamente um pequeno envelope da mala.

Colocou-o sobre a mesa.

— Só o podes abrir quando estiveres no avião.

Daniel observou o envelope.

Não perguntou o que continha.

Guardou-o cuidadosamente no bolso do casaco.

Já perto da meia-noite saíram do restaurante.

A praia encontrava-se praticamente deserta.

Decidiram caminhar junto à água.

As ondas aproximavam-se lentamente dos seus pés.

O silêncio entre ambos era confortável.

Ao chegarem ao fim da marginal, Matilde parou.

Olhou para o oceano.

Depois para Daniel.

— Promete-me uma coisa.

— O quê?

— Independentemente da distância, nunca deixes de voltar aos lugares onde foste verdadeiramente feliz.

Daniel sorriu.

— Prometo.

Naquele momento ainda não imaginava que aquele jantar, aparentemente simples, seria recordado durante toda a sua vida.

Porque algumas despedidas escondem recomeços.

E alguns encontros acontecem precisamente quando o destino parece indicar o caminho contrário.

O Último Jantar Antes da Partida

PARTE 2 – As Palavras Que Ficaram por Dizer

Daniel acordou cedo na manhã seguinte.

O jantar da noite anterior permanecia constantemente no seu pensamento.

Enquanto preparava o café, olhava repetidamente para o pequeno envelope que Matilde lhe entregara.

Sentia uma enorme curiosidade.

Mas lembrava-se perfeitamente do pedido.

"Só o podes abrir quando estiveres no avião."

Sorriu sozinho.

Decidiu respeitar aquela vontade.

O resto da manhã foi ocupado com os últimos preparativos da viagem.

Fechar malas.

Responder a alguns e-mails.

Tratar da documentação.

Mas, por mais que tentasse concentrar-se, acabava sempre por recordar pequenos momentos da noite anterior.

O sorriso de Matilde.

As conversas sobre a universidade.

O mar visto da janela do restaurante.

Ao início da tarde recebeu uma mensagem.

"Se ainda não partiste... acompanha-me até ao farol."

Era Matilde.

Daniel respondeu apenas:

"Estou a caminho."

Encontraram-se junto ao farol da Figueira da Foz.

O vento soprava com intensidade.

As ondas embatiam nas rochas.

O céu encontrava-se limpo.

Começaram a caminhar lentamente.

Sem destino.

Sem horários.

Tal como faziam durante os tempos da universidade.

— Lembras-te da primeira vez que viemos aqui? — perguntou Matilde.

Daniel riu-se.

— Perdemos o último autocarro.

— E tivemos de voltar a pé.

— Foram quase duas horas de caminhada.

— Mas nunca nos queixámos.

Ambos sorriram.

Algumas memórias permaneciam vivas apesar dos anos.

Continuaram o passeio pela praia.

A maré estava baixa.

As rochas revelavam pequenas piscinas naturais onde o céu se refletia como um espelho.

Matilde parou para tirar algumas fotografias.

Daniel observava-a em silêncio.

Percebia agora que ela continuava exatamente igual naquilo que realmente importava.

Continuava curiosa.

Atenta aos detalhes.

Capaz de encontrar beleza nas coisas mais simples.

Sentaram-se sobre uma grande rocha voltada para o oceano.

Durante alguns minutos nenhum dos dois falou.

O som constante das ondas preenchia completamente aquele silêncio.

Foi Matilde quem o interrompeu.

— Sabes qual foi o único arrependimento que tive?

Daniel olhou para ela.

— Qual?

Ela respirou fundo.

— Ter deixado que a vida passasse demasiado depressa.

Passámos anos a dizer que um dia faríamos determinadas viagens.

Que iríamos jantar mais vezes.

Que manteríamos contacto.

E depois...

Sorriu discretamente.

— Depois cada um seguiu o seu caminho.

Daniel baixou lentamente os olhos.

Também sentia exatamente o mesmo.

Houve demasiadas conversas adiadas.

Demasiados telefonemas que nunca chegaram a acontecer.

Demasiadas oportunidades perdidas.

Ao final da tarde entraram numa pequena pastelaria tradicional.

Pediram café.

Os empregados conversavam calmamente com os clientes habituais.

Lá fora começava a chover.

Daniel olhou pela janela.

— Talvez este seja mesmo o nosso último encontro.

Matilde respondeu com serenidade.

— Ou talvez seja apenas o último antes de um novo começo.

Ele sorriu.

Gostava daquela forma otimista de olhar para a vida.

Enquanto regressavam ao hotel, passaram novamente pelo restaurante onde tinham jantado.

As luzes já estavam acesas.

Algumas mesas encontravam-se ocupadas por casais.

Daniel perguntou:

— Porque escolheste precisamente aquele restaurante?

Ela respondeu imediatamente.

— Porque sabia que o mar nos faria companhia durante toda a conversa.

Quando chegaram ao hotel, Matilde preparava-se para se despedir.

Mas antes de sair voltou-se para Daniel.

— Amanhã não vou ao aeroporto.

Ele ficou surpreendido.

— Não?

Ela abanou a cabeça.

— Prefiro guardar a imagem deste passeio.

As despedidas em aeroportos são demasiado rápidas.

Demasiado barulhentas.

Prefiro lembrar-me de ti aqui.

Junto ao mar.

Abraçaram-se demoradamente.

Sem promessas exageradas.

Sem dramatismos.

Apenas com a sensação de que havia ligações que nem o tempo nem a distância conseguiam apagar.

Quando Daniel entrou novamente no quarto, colocou cuidadosamente o envelope sobre a mala.

Dentro de poucas horas estaria a milhares de quilómetros dali.

Mas tinha a estranha sensação de que a verdadeira viagem ainda nem sequer começara.

Porque, por vezes, é precisamente antes da partida que descobrimos aquilo que realmente nunca queremos deixar para trás.

O Último Jantar Antes da Partida

PARTE 3 – O Recomeço

O aeroporto encontrava-se movimentado.

Anúncios ecoavam pelos corredores, passageiros apressavam-se para as portas de embarque e as malas deslizavam silenciosamente pelo chão.

Daniel caminhava devagar.

Pela primeira vez, não tinha pressa de embarcar.

Enquanto aguardava a chamada para o voo, voltou a olhar para o pequeno envelope que Matilde lhe entregara dois dias antes.

Recordou o pedido.

"Só o podes abrir quando estiveres no avião."

Esperou.

Pouco depois, o avião levantou voo.

À medida que a costa portuguesa desaparecia entre as nuvens, Daniel respirou fundo.

Retirou cuidadosamente o envelope do bolso.

Abriu-o lentamente.

No interior encontrou apenas uma folha dobrada e uma fotografia antiga.

A fotografia mostrava os dois durante os tempos da universidade.

Sentados exatamente no mesmo banco junto ao mar onde tinham caminhado dias antes.

Atrás da fotografia existia apenas uma data.

E uma frase.

"Às vezes demoramos anos para perceber onde sempre fomos felizes."

Daniel desdobrou a carta.

Reconheceu imediatamente a letra de Matilde.

"Se estás a ler isto, significa que já partiste.

Talvez nunca te tenha dito tudo aquilo que senti durante todos estes anos.

Talvez porque achei sempre que ainda haveria tempo.

Mas a vida ensinou-me que o tempo raramente espera por nós.

Na universidade apaixonei-me por ti.

Nunca tive coragem para o dizer.

Depois cada um seguiu o seu caminho.

Vi-te construir a tua vida à distância.

Fiquei feliz pelas tuas conquistas.

Mas sempre que passava pela Figueira da Foz lembrava-me das nossas conversas, dos nossos passeios e da facilidade com que conseguíamos falar durante horas.

Não escrevo esta carta para mudar o teu destino.

Escrevo apenas porque não queria repetir o erro de guardar sentimentos dentro de mim.

Independentemente do lugar onde estejas, espero que nunca deixes de procurar aquilo que verdadeiramente te faz feliz.

E se um dia regressares ao mar onde jantámos pela última vez, talvez descubras que algumas histórias nunca terminam.

Esperam apenas pelo momento certo para continuar."

Daniel permaneceu imóvel.

Olhou novamente pela janela do avião.

As nuvens escondiam completamente Portugal.

Mas, curiosamente, nunca se sentira tão próximo de casa.

Fechou lentamente a carta.

Durante todo o voo não conseguiu pensar em mais nada.

Quando aterrou no Canadá, tudo parecia diferente.

As ruas.

A língua.

O clima.

O trabalho começou imediatamente.

Os dias enchiam-se de reuniões, novos projetos e responsabilidades.

Mas havia algo que mudara.

Todas as noites voltava a ler a carta.

Ao fim de três meses percebeu finalmente aquilo que tentava ignorar.

Sentia falta de Portugal.

Sentia falta do mar.

Sentia falta da vida que deixara para trás.

Numa manhã de inverno tomou uma decisão inesperada.

Pediu uma licença prolongada.

Comprou um bilhete de regresso.

Sem avisar ninguém.

Quando chegou novamente à Figueira da Foz, caminhou diretamente para a marginal.

O oceano continuava exatamente igual.

As ondas quebravam lentamente na areia.

O vento trazia o mesmo cheiro a sal.

Dirigiu-se ao pequeno restaurante onde tinham jantado.

Escolheu exatamente a mesma mesa junto à janela.

Enquanto aguardava, observava distraidamente o mar.

Poucos minutos depois ouviu uma voz conhecida.

— Ainda gostas de peixe grelhado?

Daniel levantou lentamente os olhos.

Matilde sorria.

Como se soubesse que aquele dia chegaria.

Ele levantou-se.

Abraçou-a longamente.

Sem pressa.

Sem necessidade de explicar nada.

Sentaram-se.

O empregado aproximou-se.

Trouxe duas cartas.

Desta vez, porém, nenhuma delas continha despedidas.

Durante horas conversaram sobre tudo aquilo que entretanto viveram.

Os meses passados.

As mudanças.

Os medos.

Os sonhos.

Quando o sol começou lentamente a desaparecer sobre o Atlântico, Daniel segurou suavemente a mão de Matilde.

— Afinal não foi o último jantar.

Ela sorriu.

— Não.

Foi apenas o jantar que nos ensinou a regressar.

Lá fora, o mar continuava o seu movimento eterno.

As gaivotas cruzavam o céu dourado.

A vida seguia naturalmente o seu caminho.

Daniel percebeu finalmente que algumas partidas são necessárias.

Não para nos afastarem daquilo que amamos.

Mas para nos mostrarem exatamente onde pertence o nosso coração.

E naquela noite compreendeu que o verdadeiro destino nunca tinha sido o outro lado do oceano.

Sempre fora aquele pequeno restaurante junto ao mar.

Onde um último jantar acabara por se transformar no primeiro capítulo de uma nova história.

Fim.

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