Sete Dias Inesquecíveis na Ilha Terceira
Sete Dias Inesquecíveis na Ilha Terceira
PARTE 1 – A Chegada ao Atlântico
O avião atravessou lentamente as nuvens antes de revelar uma paisagem que parecia saída de um postal.
Lá em baixo, o azul intenso do Atlântico envolvia a Ilha Terceira como um abraço infinito. As falésias verdes, os campos divididos por muros de pedra vulcânica e as pequenas povoações brancas desenhavam um cenário impossível de esquecer.
Ricardo aproximou-se da janela.
Viajava muito por trabalho, mas aquela era a primeira vez que visitava os Açores.
Precisava daqueles dias.
Precisava de silêncio.
Precisava de voltar a sentir que os dias podiam ser vividos sem olhar constantemente para o relógio.
Assim que aterrou, respirou profundamente.
O ar tinha um cheiro diferente.
Misturava o sal do oceano com a humidade das montanhas e o perfume das hortênsias que coloriam as estradas.
No caminho até Angra do Heroísmo, o motorista falava com orgulho da ilha.
Contava histórias sobre antigos navegadores, erupções vulcânicas, tradições populares e das famosas touradas à corda.
Ricardo limitava-se a observar.
Cada curva revelava uma nova paisagem.
Cada vale parecia mais verde do que o anterior.
Ao chegar ao hotel, deixou a mala no quarto e saiu imediatamente para caminhar.
As ruas empedradas de Angra do Heroísmo transmitiam uma elegância tranquila.
Os edifícios históricos, as varandas floridas e as igrejas antigas faziam-no sentir que estava a percorrer um pedaço vivo da história de Portugal.
Enquanto fotografava uma praça antiga, ouviu uma voz atrás de si.
— Se continuares a olhar apenas para a máquina, vais perder o melhor da ilha.
Virou-se.
Era uma mulher de sorriso tranquilo.
Segurava um pequeno caderno de desenho.
Chamava-se Mariana.
Era ilustradora e passava vários meses por ano na Ilha Terceira à procura de inspiração para os seus trabalhos.
Ricardo sorriu.
— Então o que estou a perder?
Ela apontou para o céu.
— A luz muda de cinco em cinco minutos.
É isso que torna esta ilha diferente.
Sem perceber como, começaram a caminhar juntos.
Passaram pela marina.
Visitaram pequenas ruas escondidas.
Conversaram sobre livros, viagens e os lugares que mudam as pessoas.
Mariana conhecia cada canto da cidade.
Não falava como uma guia turística.
Falava como alguém que verdadeiramente amava aquele lugar.
Ao final da tarde subiram ao Monte Brasil.
O vento soprava suavemente.
Lá em baixo, o oceano parecia infinito.
Os barcos regressavam lentamente ao porto.
Durante vários minutos permaneceram em silêncio.
Ricardo quebrou finalmente o silêncio.
— Já visitei muitos lugares.
Mas nenhum me fez sentir isto.
Mariana sorriu.
— A Ilha Terceira não tenta impressionar ninguém.
Limita-se a ser ela própria.
Talvez seja isso que a torna especial.
Enquanto o sol desaparecia lentamente no horizonte, Mariana fez-lhe um convite inesperado.
— Vou mostrar-te a ilha durante sete dias.
Mas há uma condição.
Ricardo olhou para ela, curioso.
— Qual?
— Durante uma semana esqueces o relógio.
Nada de horários.
Nada de trabalho.
Nada de pressa.
Aceitas?
Ricardo riu-se.
Desligou o telemóvel.
Guardou-o na mochila.
Olhou novamente para o oceano.
— Aceito.
Mariana sorriu.
— Então amanhã começa verdadeiramente a tua viagem.
Naquele momento, Ricardo ainda não imaginava que aqueles sete dias mudariam muito mais do que o destino das suas férias.
Mudariam a forma como passaria a olhar para o tempo, para a vida e para os encontros inesperados que acontecem quando menos esperamos.
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PARTE 2 – Os Lugares Que Não Aparecem nos Mapas
O segundo dia começou cedo.
Mariana apareceu no hotel poucos minutos depois do nascer do sol.
Ricardo estranhou vê-la já pronta para partir.
— Pensei que hoje fossemos descansar.
Ela sorriu.
— Aqui também se descansa a caminhar.
Seguiram pela estrada em direção ao Algar do Carvão.
Durante o percurso, Mariana falava sobre a origem vulcânica da ilha, das erupções que moldaram a paisagem e da forma como a natureza recuperou lentamente aquele território.
Quando entraram no Algar do Carvão, Ricardo ficou completamente surpreendido.
Nunca tinha estado dentro de um vulcão.
As paredes cobertas de musgo, as formações rochosas e a luz que entrava pelo topo criavam um cenário quase irreal.
Durante vários minutos limitaram-se a observar.
— É incrível pensar que tudo isto nasceu da força da natureza — comentou Ricardo.
Mariana respondeu calmamente.
— A ilha ensina-nos que até das maiores transformações pode nascer algo extraordinário.
A frase ficou-lhe gravada na memória.
Ao saírem seguiram para uma pequena estrada secundária.
Não existiam placas turísticas.
Nem autocarros.
Apenas campos verdes separados por muros de pedra negra.
Vacas pastavam tranquilamente enquanto o oceano surgia ao fundo da paisagem.
Pararam num pequeno miradouro quase desconhecido.
O vento soprava com intensidade.
As ondas batiam violentamente nas rochas vulcânicas.
Ricardo respirou profundamente.
— Nunca vi tantos tons de verde.
Mariana riu-se.
— Dizem que a Terceira tem uma cor diferente todos os dias.
Depende da luz.
Depende das nuvens.
Depende do mar.
Ao almoço entraram numa pequena casa tradicional.
Os proprietários receberam-nos como velhos amigos.
Serviram pratos preparados com produtos locais e contaram histórias sobre a ilha, as festas populares e as gerações que ali tinham vivido.
Ricardo percebeu rapidamente que a hospitalidade açoriana não era apenas uma fama.
Era uma forma natural de receber quem chegava.
Durante a tarde visitaram pequenas freguesias espalhadas pela ilha.
Casas brancas.
Igrejas centenárias.
Jardins impecavelmente cuidados.
Cada local parecia conservar um ritmo próprio.
Sem pressa.
Sem confusão.
Ao aproximarem-se da costa norte, Mariana pediu-lhe que estacionasse.
Seguiram a pé por um pequeno trilho.
Poucos minutos depois surgiu diante deles uma piscina natural formada pela lava.
A água era transparente.
O oceano entrava lentamente entre as rochas.
Não havia praticamente ninguém.
— Como descobriste este lugar?
Ela sorriu.
— Alguns lugares encontram-nos a nós.
Sentaram-se sobre uma pedra aquecida pelo sol.
Conversaram durante horas.
Ricardo falou da infância passada junto ao mar, dos sonhos que tinha deixado para trás e da sensação constante de viver sempre demasiado depressa.
Mariana ouviu tudo com atenção.
Depois disse apenas:
— A maioria das pessoas pensa que viajar serve para conhecer novos lugares.
Eu acho que serve para nos voltarmos a encontrar.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável.
Era um silêncio de quem compreende exatamente aquilo que o outro está a sentir.
Ao final da tarde regressaram a Angra do Heroísmo.
Passearam lentamente pela marina enquanto o céu começava a ganhar tons dourados.
As embarcações balançavam suavemente.
As esplanadas enchiam-se de habitantes e visitantes.
Um músico tocava guitarra ao longe.
Ricardo olhou para Mariana.
— Tenho a sensação de que cada dia aqui dura muito mais do que uma semana inteira na cidade.
Ela sorriu.
— Porque aqui ainda existe tempo para reparar nas pequenas coisas.
Antes de se despedirem, Mariana apontou para o horizonte.
— Amanhã vamos subir até ao lugar onde a ilha parece tocar o céu.
Ricardo ficou curioso.
— Existe mesmo um lugar assim?
Ela respondeu apenas:
— Amanhã vais perceber.
Enquanto regressava ao hotel, Ricardo tinha a estranha sensação de que a Ilha Terceira estava lentamente a mudar a forma como via o mundo.
E ainda só tinham passado dois dos sete dias que prometiam tornar aquela viagem absolutamente inesquecível.
Sete Dias Inesquecíveis na Ilha Terceira
PARTE 3 – O Regresso ao Essencial
O terceiro dia terminou, o quarto passou quase sem que Ricardo desse por isso, e depressa chegaram ao sétimo e último dia.
Ao contrário do que acontecia habitualmente nas suas viagens, não tinha contado os dias para regressar.
Pela primeira vez em muitos anos, desejava que o tempo abrandasse.
Mariana apareceu cedo no hotel.
— Hoje vamos terminar esta viagem da mesma forma que a começámos.
— Como?
— A caminhar.
Seguiram por uma estrada que atravessava campos verdes divididos pelos tradicionais muros de pedra vulcânica.
As vacas pastavam tranquilamente enquanto o Atlântico surgia ao longe.
O destino era o Miradouro da Serra do Cume.
Quando chegaram, Ricardo ficou completamente sem palavras.
À sua frente estendia-se uma enorme manta de campos agrícolas separados por muros de pedra, formando um dos cenários mais emblemáticos dos Açores.
As nuvens moviam-se lentamente sobre a paisagem.
A luz mudava de minuto a minuto.
Era impossível contemplar aquele lugar sem sentir uma profunda tranquilidade.
— Chamam-lhe a manta de retalhos — explicou Mariana.
— Agora percebo porquê.
Permaneceram ali durante largos minutos.
Sem fotografias.
Sem telemóveis.
Apenas a observar.
Mais tarde seguiram até à costa.
As ondas batiam com força nas rochas negras.
O vento trazia consigo o cheiro intenso do oceano.
Ricardo respirou profundamente.
— Acho que nunca mais vou olhar para o mar da mesma maneira.
Mariana sorriu.
— A ilha costuma fazer isso às pessoas.
Ao almoço entraram numa pequena casa familiar onde os proprietários os receberam com a mesma simpatia dos dias anteriores.
Conversaram sobre a vida na ilha, as tradições, as festas do Espírito Santo e a importância da comunidade.
Ricardo percebeu que o verdadeiro património da Ilha Terceira não eram apenas as paisagens.
Eram também as pessoas.
Durante a tarde decidiram regressar ao Monte Brasil.
Foi ali que tudo começara.
Sentaram-se exatamente no mesmo banco onde tinham assistido ao primeiro pôr do sol.
O oceano continuava igual.
Os barcos entravam lentamente na baía.
As gaivotas voavam sobre a marina.
Ricardo quebrou finalmente o silêncio.
— Obrigado.
Mariana olhou para ele.
— Pelo quê?
— Por me mostrares uma ilha que nenhum guia turístico conseguiria explicar.
Ela sorriu.
— Não fui eu.
Foi a própria ilha.
Eu apenas caminhei ao teu lado.
Pouco antes de o sol desaparecer, Mariana retirou do bolso um pequeno caderno de desenhos.
Entregou-o a Ricardo.
Na primeira página encontrava-se uma ilustração de Angra do Heroísmo.
Na segunda, o Algar do Carvão.
Depois surgiam o Monte Brasil, o Miradouro da Serra do Cume, as piscinas naturais e vários locais que tinham visitado durante aqueles sete dias.
Na última página existia apenas uma frase escrita à mão.
"As melhores viagens não terminam quando regressamos a casa.
Continuam sempre que fechamos os olhos e voltamos a percorrer cada lugar na memória."
Ricardo fechou cuidadosamente o caderno.
Na manhã seguinte chegou o momento da despedida.
No aeroporto, nenhum dos dois encontrou grandes discursos.
Abraçaram-se.
— Vais voltar? — perguntou Mariana.
Ricardo respondeu sem hesitar.
— Não tenho dúvidas.
Porque ainda ficou muito por descobrir.
Ela sorriu.
— A Ilha Terceira tem esse hábito.
Nunca se revela completamente numa única visita.
Enquanto o avião levantava voo, Ricardo voltou a olhar pela janela.
A ilha ia ficando cada vez mais pequena.
Mas a sensação que levava consigo era exatamente a contrária.
Sentia-se maior.
Mais tranquilo.
Mais consciente da importância de viver cada momento.
Meses depois, já em Lisboa, muitas pessoas perguntavam-lhe qual tinha sido o lugar mais bonito da viagem.
Ricardo respondia sempre da mesma forma.
— Não foi apenas um lugar.
Foi a forma como a Ilha Terceira me ensinou a viver devagar.
Sempre que voltava a abrir o pequeno caderno oferecido por Mariana, recordava cada conversa, cada caminhada, cada paisagem e cada nascer do sol.
Percebia então que algumas viagens não servem apenas para conhecer um destino.
Servem para regressarmos a nós próprios.
E foi exatamente isso que encontrou na Ilha Terceira.
Não apenas uma semana de férias.
Mas sete dias capazes de permanecer para sempre na sua memória.
Fim.
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